quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Só Palavras



Eram oito da noite de domingo, estava deitado em sua cama escrevendo um texto e cheio de ideias. Com a ventilador ligado, não aguentou o calor e decidiu pegar seu caderno e caneta saindo para a rua.
Ao sair de casa pode observar homens no bar discutindo sobre mulher e futebol, crianças brincando na rua, gente apressada indo e vindo. Dava para escutar músicas de igrejas sendo cantadas em coro e televisores ligados em programas de auditórios nas casas vizinhas. Mas ele apenas sentou no meio fio em frente de uma casa e começou a escrever o que lhe vinha à cabeça.  
Mas enquanto escrevia, pessoas o olhavam como se fosse um ser de outro planeta. Pareciam não entender o que aquele homem estava fazendo. Um dos transeuntes quase esbarrou em um poste. Não se sabe se a causa da distração era admiração ou estranhamento.
Logo à frente de onde estava sentado, percebeu uma movimentação. Ao olhar para a janela da casa, lá estava uma menina, olhando para ele. Porem ao perceber que foi notada, pareceu assustada. Correu para dentro de casa, parecendo que precisava ser socorrida. Segundos depois na sacada da casa ela juntamente com a mãe começaram a cochichar.
- ‘O que ele está fazendo aí? ’  Disse a filha.
‘Deve ser alguém que mora aqui perto. ’ Disse a mãe olhando para os lados, como se procurasse uma resposta.
‘O que será que ele está escrevendo? ’
‘Já para dentro menina. ’ Se irritou a mãe.
Tempo passou e apareceu na sacada da casa outro personagem. Um Homem sem camisa, visivelmente irritado por ter sido tirado do seu sossego. Deu uma olhada para o homem sentado logo à frente de sua casa. O encarou, como se aquele homem com caneta e papel pudesse ameaçar a paz de sua família. Permaneceu por 5 segundos estático e voltou para casa.
E então o jovem escritor percebeu que poderia estar correndo risco de ser interrompido por um bêbado que podia querer dividir seus delírios. Por acreditar que encontrou alguém, na mesma condição. Poderia ser um religioso que falaria que aquele escritor precisava conhecer a palavra de Deus. Ou então poderia ser o homem daquela casa, querendo saber porque não o deixou descansar confortavelmente naquele fim de tarde de domingo.
Pois realmente estava atrapalhando a paz daquelas  pessoas, não só daquela família. Pois um homem escrevendo na rua, causa mais espanto do que um assalto. Pois aquela cena saia totalmente da caixinha em que estavam presos, acostumados a viver. Ninguém percebia que aquele homem estava  aprendendo a ver o mundo de uma nova forma. Talvez até percebiam mas, naquela casa, podiam ter medo que sua filha, ainda ingênua, percebesse que o mundo não era só aquilo que seus pais tinham para mostrar. Que aquela menina percebesse que o mundo não se resume a caixinha que seus pais criaram para ela viver. Pois através da leitura, da escrita; através da palavra, ela poderia enxergar o mundo de outra forma.   

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O Botijao


Quando me tornei adulto, já era de se esperar que eu me tornasse problemático. Mas no auge da minha ingenuidade, achei que me reaproximando da minha amada Mãe, meus problemas estariam resolvidos. Então fui atrás de informações para entrar em contato. Entrei em contato e fui encontra-la no endereço informado.
Antes de encontrá-la, dentro do ônibus, imaginava como se fosse uma cena de novela. Onde de fundo toca uma música triste da Celine Dion e mãe e filho correndo em sentido contrário até se abraçarem, sem saber se chora ou se ri de tanta felicidade. Mas não foi isso que aconteceu.
Acordei desse delírio quando o ônibus chegou ao terminal. Ao descer do ônibus, ela já estava me esperando, reconheci na hora. Ao invés de uma cena de novela, pareceu mais um desenho animado com personagens que vivem em mundos totalmente diferentes. Como se fosse o encontro Goku do Dragon Ball Z e a Monica das revistinhas do Maurício de Souza. Sem afinidade nem sintonia alguma. Deu até para ouvir o grilo cantando.
Passado o primeiro constrangimento. Todos se sentaram envolta de uma mesa: eu, Amada Mãe, meu irmão, primos e tias. Aí lá vem a Amada perguntar, com um enorme sorriso no rosto, se eu lembrava de uma história com o botijão.  Fui adotado com três anos de idade, é óbvio que não me lembro de muita coisa. Com a resposta negativa, aí ela deu uma gargalhada. Ao recuperar o fôlego contou a história do botijão.     
Quando eu tinha 2 ou 3 anos e meu irmão com um ano a mais. Minha Amada mãe foi trabalhar deixando nós dois em casa. Até aí tudo bem, família humilde, alguém tem que trabalhar, conhece os vizinhos e tal. Mas convenhamos  que deixar duas crianças sozinhas em casa, não poderia acabar bem.
Depois de um dia de trabalho, ela voltou para casa. Dia após dia, um cheiro desagradável tomava conta da casa. Ela achou ser um animal morto e procurou envolta da casa, e nada. Mas quando olhou atrás do botijão de gás, lá estava um pano sujo de ovo. Era que eu e meu irmão tínhamos deixado cair uma caixa de ovo no chão e queríamos dar um jeito para que ela não soubesse. Burrice né?? Tínhamos no máximo 3 e 4 anos de idade. Não se pode esperar tanto de crianças dessa idade.   
Aí com um gargalhada nada discreta, ela me contou que aquela foi a maior surra que tomamos. Mas ela ficou visivelmente decepcionada com o fato de eu ter me esquecido dessa história e daí que surgiram algumas perguntas.
Por que eu não lembrei?
 Há sim, foi meio traumático. Por isso penso eu, que esse fato foi apagado da minha memória.

Por que nós escondemos o pano sujo?
É lógico que já havíamos apanhado várias vezes anteriormente.

Porque quando vi meu pai pela primeira vez, eu fui tão emocional?
Devo ter pensado: "Me proteja".

Porque nosso reencontro foi tão apático?
Talvez porque meu inconsciente soubesse de tudo. Se fosse o Goku e se lembrasse de tudo isso. Daria um Kamehameha na coitada da Mônica.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Equilibrio



João tinha uma opinião clara quando o assunto tratado era fé. A humanidade se divide em três grupos. Dois desses grupos estão confortáveis em suas cadeiras de praia tomando suco de laranja. Mas uma parede os divide para não haver conflitos. Afinal religiosos de um lado, seguros em sua fé e ateus do outro, seguros de que a fé religiosa não teria o mínimo sentido. E existe o grupo dos equilibristas que nunca vão estar satisfeitos. Ficam em cima dessa parede divisória tentando apenas observar o que pode tirar de positivo de cada um dos lados.  Sempre há alguém tentando puxa-lo pelo braço, hora religiosos , hora ateus. Com argumentos que para os equilibristas fazia todo sentido mas ao mesmo tempo não fazia sentido algum.
Apesar de parecer confuso, pois João era um dos malucos
equilibristas, sua  fé não era tão complexa. Acreditava em Deus, apenas isso e ponto. Mas para complicar mais ele frequentava igreja e gostava dos ensinamentos da bíblia e amanha poderia muito bem frequentar os cultos e ler os ensinamentos de outra religião. Porem essa forma de ver a fé, gerou uma discussão imensa. Religiosos afirmariam que não é apenas isso. Tem que seguir a bíblia e frequentar a Igreja semanalmente. Por outro lado, um ateu o chamaria de idiota. Por acreditar sem poder provar e não ter fundamento. Mas João sempre afirmava para esses questionadores que a fé é pessoal e indiscutível. Podemos até dividir ideias e experiências vividas sob a influência de sua fé , de forma para que outros aprendam. Mas logo, insatisfeitos, os dois grupos em oposições opostas e em uníssono, o atacariam com uma pergunta. Então por que você vai à igreja se não acredita na bíblia?
Sim, realmente, ele talvez não tivesse tanta certeza, de que a bíblia fosse um livro que contasse fatos concretos de forma tão fiel, talvez alguns fatos ocorreram, mas podiam ter sidos inseridos de forma poética ou até que haja fatos inventados. Mas só isso, anula o valor histórico dessa obra? Só isso inviabiliza a bíblia de ser uma fonte de aprendizado para a vida?  Não é toa que a partir dela, tantas pessoas extraem aprendizados para a vida.
Mas não adianta, João dificilmente escolheria se acomodar em um dos lados da parede. Quem sabe um dia virasse pó, renascesse num pais africano com outra cultura   ou até podia levar um papo com Deus que lhe contaria toda a verdade. Mas do jeito que as coisas se encaminhavam, não ficaríamos surpresos se ele tirasse todas essas dúvidas existenciais com o Demônio.